terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Carlos Drummond de Andrade


Um homem e seu Carnaval
Carlos Drummond de Andrade, do livro “Brejo das Almas”. 1934.

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

2 comentários:

  1. Linda e bem escolhida poesia! beijos, ótimo dia de Carnaval! chica

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  2. Não sei se entendi direito, mas gostei, forte e realista!
    Nem sempre o tempo nos joga em mares azuis de lembranças, os brejos também existem.
    Bom final de feriado, meninas!
    Abraço!

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