segunda-feira, 30 de março de 2020

Abdias do Nascimento

Evocação da rosa

Era uma vez uma rosa 
que não era vegetal 
nem rosa mineral
carecia até da cor de rosa
era uma gata formosa
negra amarela e brancosa
irrequietamente caprichosa
vestida de suave pêlo multicor

Bichana terrivelmente amorosa
dos laços dos seus encantos
nenhum gato jamais se livrou 
pelos telhados miava dengosa
suspirava a noite inteira 
seduzindo namoradeira
toda a gataria ao
luar da lua alcoviteira

Certo dia Rosa pariu 
uma ninhada de gatinhos 
de várias cores engraçadinhos
os mais lindos eram os pretinhos 
mamavam de patinhas entrelaçadas
ronronando de olhos cerrados
boquinhas rosadas coladas
às rosadas tetas de Rosa

Num desses momentos
um gatão assassino
pêlo sujo debotado
miando feio saltou felino
matando gatinho por todo lado

A mãe valente e briosa
socorri de porrete na mão 
ajudei a defesa de Rosa
esbordoando estridente 
perseguindo o ladrão
ele fugiu espavorido
um gatinho levando nos dentes
outros sangravam na agonia
Rosa fuzilava os olhos dementes
miando plangente a dor que lhe doía
noites a fio seu gemer se ouvia
ó doce e carinhosa Rosa
era de cortar o coração 
ver-te enlouquecida 
recusar enfurecida
aquela felina traição
ir definhando entristecida
até a completa inanição

Rosa cheirosa e macia
que ao morrer no
meu jardim plantei
sob a terra desapareceu
aos cuidados da minha
pobre primavera de 
uma gata demente e morta
a rosa-gata enternecida
em rosa-flor floresceu
foram ambas a 
única rosa que 
a infância me deu

livro "Axés do sangue e da esperança: Orikis", de Abdias do Nascimento.

quarta-feira, 25 de março de 2020

# 17 Presente Literário

                                                         Maria Dezonne Pacheco Fernandes
                                                                      1910 - 1998

Foi escritora e jornalista, sua obra mais conhecida é 'Sinhá Moça' (1950) e foi re-editado várias vezes,  deu origem ao filme de mesmo nome (1953). 

Sinhá Moça virou tema de novela (1986) e ganhou um remake em 2006.

Maria Dezonne colaborou nos jornais A Tribuna, de Santos, no Diário de São Paulo, da capital paulista, e no Correio do Povo, de Porto Alegre.

Suas obras:


Folhas do coração (crônicas), 1941; 

Punhado de emoções (romance), 1945;
Sacrifício de mãe (romance), 1945; 
Evocação, (1950).

sábado, 21 de março de 2020

Machado de Assis - Conto # 5

Olá Viajantes Machadianos!

Vamos para mais um conto retirado 'Contos Fluminenses', Confissões de uma Viúva Moça.

Atenção: Contém Spoiler!!!

Logo após a morte de seu esposo Eugenia foi morar em Petrópolis, muitos achavam que ela se isolou por causa da viuvez.

Na verdade Eugenia tinha outros motivos para  isolar - se, porém ela resolve contar para sua amiga Carlota, o que a fez deixar a corte. Escreve 07 cartas à amiga, revelando o real motivo.

Certa noite, Eugenia foi ao teatro, e percebe que um rapaz a observa insistentemente, ao mesmo tempo que se sentiu envaidecida, ficou assustada com tamanha audácia. Resolveu ir embora antes da peça terminar. E ao sair, quem estava num ponto estratégico a encara-la do mesmo modo fixo? O belo rapaz!

Esse fato deixou Eugenia tão perturbada, que resolveu se afastar por algum tempo da vida social. Para sua surpresa, ela recebe uma carta do misterioso rapaz. Ao mesmo tempo que ficou curiosa, sentiu-se envergonhada e confusa.

Logo, resolveu dar o fim naquela carta. Mas, para sua surpresa, o marido a surpreendeu. Eugenia, correu para os braços dele, que friamente se afasta sem nada dizer. O coração da jovem moça se entristece ao ver a indiferença de seu marido, uma amargura toma posse de sua alma.

Eugenia era uma moça feita para o casamento, tinha uma vida social ativa, mas sem muitas novidades, e  percebe-se que ela não era muito feliz no casamento.

Depois de algum tempo, Eugenia tem uma grande surpresa, seu marido traz nada mais, nada menos que seu admirador Emílio, e ele começa a frequentar a casa do casal.

Como fugir de tal acontecimento? Emílio se declara para Eugenia que se vê apaixonada e acaba por se deixar  levar pelas juras de amor do rapaz. Mas, ela se sente mal com esta situação.

Como a vida é cheia de surpresas, seu marido adoece, e em poucos dias vem a falecer. Emílio deu todo apoio e consolo, mas com o tempo as visitas se tornam escassas. Até que  Emílio escreve para Eugenia, deixando claro que não a queria para casamento, que foi apenas uma aventura.

O que nos surpreendeu neste conto foi que Machado coloca a mulher em primeiro plano, sendo ela narradora de seus sentimentos e, de forma epistolar, Eugenia vai dando um aspecto confessional de sua saga amorosa.

Lembrando que, a mulher no século 19, mal tinha espaço para se expressar e jamais seria o ponto central de qualquer narrativa. 

Eugenia nos mostra suas verdades, fraquezas, deixa claro sua carência, porém soube silenciar no momento certo e se mostrou firme em seus princípios.

Já na figura de Emílio, Machado mostra a soberania masculina. A atitude do rapaz nos leva a crer que ele é altamente machista, volúvel, mal caráter, trata a mulher como objeto de seu desejo e prazer.

Emílio, sem cerimonia alguma, descarta Eugenia, sem se preocupar com seus sentimentos! Nosso autor deixa bem claro como era a sociedade na época. Não diferente dos tempos de hoje, em que vemos manchetes de homens que enganam mulheres carentes e que por muitas vezes dão grandes golpes financeiros.

Outro ponto que nos chamou a atenção foi a forma que Machado nos insere na história. Carlota recebe as cartas de Eugenia, mas na verdade a amiga seria nós leitores. Isso é sensacional!

Grande Machado de Assis!

Até breve, com o próximo conto " Linha Reta e Linha Curva"..

Esta leitura faz parte do Projeto Machado de Assis. Participe conosco e não esqueça de dar os devido créditos!

Nice Sestari







terça-feira, 17 de março de 2020

Machado de Assis - Conto # 4

Olá Viajantes Machadianos!

O Segredo de Augusta, integra a obra 'Contos Fluminenses' de 1870.

Atenção: Não contém spoiler! 

Machado de Assis é de uma precisão cirúrgica neste conto, apesar de se passar na segunda metade do século XIX, o assunto é também atual. Quantos de nós já não presenciamos algumas pessoas preocupadas com o julgamento social. Sim! O famoso "o que os outros vão falar". Ou aquelas pessoas que em casa é uma pessoa e fora outra bem diferente!

Bom, vamos conhecer a família Vasconcelos. Augusta, esposa e mãe, ainda tem o frescor da juventude, apesar dos seus trinta anos é muito bela e vaidosa. Adelaide a filha de apenas 15 anos, não tão bela quanto a mãe, de formas simples, foi criada boa parte de sua infância em uma fazenda e adquiriu hábitos humildes. Vasconcelos, o pai, vive para os negócios, tem uma amante e é negligente com a família. Ah! Já íamos esquecendo do tio Lourenço, cunhado de Augusta, ele é mais participativo na família do que o irmão .

Como a maioria das famílias abastadas, esta família aqui apresentada passa também por grandes provações e sim, caros leitores, por um segredo.

Com a filha na idade para se casar, Vasconcelos recebe a proposta de casamento, do amigo Gomes.  Primeiro Vasconcelos pensa em perguntar para a filha o que acha.

Mas, o inesperado acontece: o Sr. José Brito bate as portas da família, cobrando uma dívida de Vasconcelos. Sem dinheiro, logo ele vê o casamento como a tábua de salvação. O casamento que seria algo sagrado, vira moeda de troca. Afinal, o amigo Gomes poderia emprestar um dinheiro ao futuro sogro.

Ao saber do casamento, Augusta não aceita que a filha se case. E quando Vasconcelos diz que a menina precisaria se casar o mais rápido possível, para salvar a família da pobreza, Augusta vira uma fera. Ofensas para todo lado, como ela estaria na pobreza, como poderia frequentar a alta sociedade!

Em torno desta confusão, percebemos que os pais de Adelaide não estão preocupados com o bem estar dela, e sim com o deles. Afinal o casal vive de aparências, ambos são mesquinhos, o pai um boêmio, a mãe a dama fútil.

Vasconcelos percebe que, além das futilidades e a preocupação de Augusta com o julgamento social, há um segredo, do qual a esposa não quer lhe contar. E logo uma pulguinha atrás da orelha começa a coçar em Vasconcelos. Porque a esposa não quer que a filha se case com Gomes?  Será que Augusta é apaixonada pelo amigo? Será que ela teve um caso  com Gomes no passado?

Mais uma vez, Machado nos mostra uma sociedade decadente, o casamento por interesse, o autoritarismo patriarcal, a trajetória social da mulher, o falso brilho social. E mais, nos mostra uma mãe e esposa mesquinha, fútil, imatura e negligente, porém diante da sociedade uma mulher bela, admirável e dona de si.

O segredo de Augusta nos é relatado com a descoberta de Vasconcelos, quando a esposa conversa com uma amiga. Olha, por essa não esperávamos... Machado foi exemplar por nos mostrar uma sociedade de aparências.

Ficaram curiosos? Vale muito apena ler esse conto e muitos outros!

Este conto faz parte do Projeto Machado de Assis. Veja aqui!

Até breve, com  'Confissões de uma viúva moça.'

Nice Sestari


quinta-feira, 12 de março de 2020

12 de março - Dia do Bibliotecário

Olá!!! Tudo bem?

Hoje o dia é MEGAAAA especial!!! É dia do profissional que faz o seguinte juramento:

“Prometo tudo fazer para preservar o cunho liberal e humanista da profissão de Bibliotecário, fundamentado na liberdade de investigação científica e na dignidade da pessoa humana”. (CRB-8)

PARABÉNS, BIBLIOTECÁRIOS! 
Que vocês continuem conquistando muitos espaços, que mostrem à todos o caminho para a informação verdadeira, que disseminem muitas informações, que inovem suas atividades com muita tecnologia, que "coloquem ordem no caos" (Mente Brava), enfim, que sejam devidamente reconhecidos pela sociedade!

E lembrem-se sempre: 
SE TEM BIBLIOTECA, TEM QUE TER BIBLIOTECÁRIO!


Aqui vão alguns links relativos a nós, bibliotecários!

Mente Brava (loja com produtos voltados aos bibliotecários)
Santa Biblioteconomia (possui materiais e cursos preparatórios para bibliotecários)
Portal do Bibliotecário

Por Ale Veras

sábado, 7 de março de 2020

Machado de Assis - Conto #3

Olá Viajantes Machadianos!

Vamos para mais um conto da coletânea 'Contos Fluminenses'. A Mulher de Preto.

Atenção: Não contém spoiler!

Nosso autor nos apresenta a malfadada história de amor e amizade... será?!


Este trio tem muita história pra contar! Dr.Estevão, deputado Meneses e Madalena a mulher de preto.

A amizade de Estevão e Meneses vai aumentando e os dois acabam por se tornarem grandes amigos, saíam juntos e a prosa era boa. 

Certa noite Dr. Estevão vai a um baile e fica fascinado por uma jovem viúva. E saiba caros leitores, que só os livros ocupavam a mente deste Doutor.

Estevão faz de tudo, e se aproxima de Madalena, a mulher de preto. Mas, nem tudo são flores! Com o tempo Madalena conta seu segredo à Estevão e todo seu amor cai por terra. Ele se sente usado. Mas resolve ajuda-la.


Meneses, faz parte de toda a história, nela contém uma grande dúvida, da qual o deputado acusa Madalena de traição, e Madalena nega... acredito que pensaram em Dom Casmurro?


A suposta ou real traição também nos deixa de orelha em pé neste conto!


Mesmo triste, Estevão serve de mediador para Madalena e Meneses. Eles nem desconfiam dos sentimentos do amigo.


Machado nos envolve num jogo psicológico, repleto de mistério, nobreza de valores, o comportamento feminino, a visão que os homens tinham do objeto desejado, a idealização existente na época sobre a  mulher e como não poderia faltar, os costumes da classe rica da cidade do Rio de Janeiro.

Este conto faz parte do Projeto Machado de Assis, saiba mais aqui!

Até breve, com o conto 'O segredo de Augusta'.

Boas Leituras!
Nice Sestari

quarta-feira, 4 de março de 2020

Machado de Assis - Conto # 2

Olá Viajantes Machadianos!

O conto "Luís Soares", que faz parte da primeira fase de Machado, se encontra na coletânea  'Contos Fluminenses'.

Atenção: Não contém spoiler!

A personagem principal desta história é Luís Soares, e por meio dele, Machado deixa sua crítica à sociedade da época, da qual vive de aparências e futilidades.

Luís Soares, era jovem, herdou uma boa fortuna da herança dos seus falecidos pais, boêmio, trocou a noite pelo dia, e não se interessava por nada, nem mesmo em gerenciar sua fortuna e nem os avisos do banqueiro.

Porém, tudo que é bom dura pouco, assim também aconteceu com o jovem rapaz. Se viu numa sinuca de bicos, quando foi anunciado que estava na falência.

O que fazer? Luís Soares logo tentou solucionar o problema, pensou em três possibilidades. A primeira seria arrumar um emprego em algum órgão público, mas  essa opção era a menos interessante para ele. A segunda seria um bom casamento e a terceira era uma herança. Esta última seria a melhor, já que ele lembrou de seu velho tio, que não tinha herdeiros diretos.

Naquela época, casamentos arranjados e heranças era salvação da lavoura para os mais abastados. Luís Soares não pensava diferente.

Casamento estava fora de cogitação, já que a noiva mais próxima, sua prima Adelaide, era, vamos assim dizer, sem grana suficiente para chamar a atenção de Soares. Ela tinha recebido de seu falecido pai apenas 30 contos de réis, que era seu dote.

Então o jovem mancebo resolve dar um de bom samaritano e começa a frequentar a casa do tio.

Como todos nós sabemos, a vida dá voltas inesperadas. Um grande amigo da família, Major Vilela, aparece e muda o rumo da história de Luís Soares.

Quando o jovem achava que tudo estava resolvido, teria novamente a possibilidade de ter fortuna, sua prima Adelaide lhe prega uma grande peça. 

Com o golpe recebido, Luís Soares se vê em maus lençóis e toma uma atitude drástica e fatal.

Qual foi a atitude da prima Adelaide? O que fez Luís Soares? 

Deixaremos pra vocês descobrirem!

Até breve, com o próximo conto 'A mulher de preto'.

Esta leitura faz parte do Projeto Machado de Assis. Participe conosco e não esqueça de dar os devido créditos! Até breve!
Nice Sestari