Organiza o Natal Carlos Drummond de Andrade Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente, de cortina de ferro à cortina de nylon — sem cortinas. Governo e oposição, neutros, super e subdesenvolvidos, marcianos, bichos, plantas en...
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Mostrando postagens com o rótulo poesia
Luís Vaz de Camões
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Transforma-se o amador na cousa amada Transforma-se o amador na cousa amada, Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, Que, como o acidente em seu sujeito, Assim co'a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; [E] o vivo e puro amor de que sou feito, Como matéria simples busca a forma. imagem pixabay
Nísia Floresta
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A Lágrima de um Caeté (Fragmento) Nísia Floresta Era da natureza filho altivo, Tão simples como ela, nela achando Toda a sua riqueza, o seu bem todo… O bravo, o destemido, o grão selvagem, O brasileiro era… – era um Caeté! Era um Caeté, que vagava Na terra que Deus lhe deu, Onde Pátria, esposa e filhos Ele embale defendeu!… É este… pensava ele, O meu rio mais querido; Aqui tenho às margens suas Doces prazeres fruído… Aqui, mais tarde trazendo Na alma triste, acerba dor, Vim chorar as praias minhas Na posse de usurpador! Que de invadi-las Não satisfeito, Vinha nas matas Ferir-me o peito! Ferros nos trouxe, Fogo, trovões, E de cristãos Os corações E sobre nós Tudo lançou! De nossa terra Nos despojou! Tudo roubou-nos, Esse tirano, Que povo diz-se Livre e humano! imagem Pixabay
Adélia Prado
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Com licença poética Adélia Prado Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Faz parte da obra Bagagem -1976. Imagem Pixabay
Carlos Nejar
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LUNALVA Carlos Nejar Se quiserem saber quem sou - Não sei quem sou Só sei que em mim A sombra e a luz São vultos Que se buscam e se amam Loucamente Se quiserem saber do meu destino - Não sei do meu destino - Não sei do meu nome Só sei daquela sede Imensa sede Que ainda não foi saciada Se quiserem saber donde venho - Não sei donde venho Talvez venha do vento Do deserto Do mar Ou do fundo das madrugadas Não Não me amem tão depressa "Não me compreendam tão depressa" Não me julguem tão fácil Por favor Não me julguem tão mesquinho Tão cotidiano O pão que trago comigo - Não é pão É fogo O vinho que trago comigo - Não é vinho É sangue E eu vos afirmo - Todos hão de beber Do Fogo e do Sangue Poema deixado por Silbion na entrada "dos Infernos". Sélesis, 1960
A Terra é Nossa
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A terra é nossa Patativa do Assaré A terra é um bem comum Que pertence a cada um. Com o seu poder além, Deus fez a grande Natura Mas não passou escritura Da terra para ninguém. Se a terra foi Deus quem fez, Se é obra da criação, Deve cada camponês Ter uma faixa de chão. Quando um agregado solta O seu grito de revolta, Tem razão de reclamar. Não há maior padecer Do que um camponês viver Sem terra pra trabalhar. O grande latifundiário, Egoísta e usurário, Da terra toda se apossa Causando crises fatais Porém nas leis naturais Sabemos que a terra é nossa.”
Terra Seca
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pixabay Somente em Ti construirei a minha casa Somente em Ti colocarei minha esperança Somente em Ti construirei a minha casa Somente em Ti colocarei minha esperança Pois só em Ti minh'alma achou descanso Pois só em Ti eu pude respirar Pois só em Ti minh'alma achou descanso Só em Ti eu pude respirar E o meu coração deseja Te encontrar Como a terra seca anseia pela chuva Vem me saciar Pois eu descobri Que aqui é o meu lugar Composição de Padre Ailton Fernandes Cardoso/Irmão Samuel Maria Terra Seca é uma letra de música da Fraternidade São João Paulo II. É uma busca espiritual, nossa alma é esta 'terra seca que anseia pela chuva', nossa busca em Deus, para encontrarmos paz, alívio para nossas dores e sentir o verdadeiro Amor! Salmo 143,6 - 'Para vós estendo minhas mãos, como a terra seca anseio por vós!'
Mulher Fenomenal
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Mulher Fenomenal Maya Angelou Lindas mulheres indagam onde está o meu segredo Não sou bela nem meu corpo é de modelo Mas quando começo a lhes contar Tomam por falso o que revelo Eu digo, Está no alcance dos braços, Na largura dos quadris No ritmo dos passos Na curva dos lábios Eu sou mulher De um jeito fenomenal Mulher fenomenal: Assim sou eu Quando um recinto adentro, Tranquila e segura E um homem encontro, Eles podem se levantar Ou perder a compostura E pairam ao meu redor, Como abelhas de candura Eu digo, É o fogo nos meus olhos Os dentes brilhantes, O gingado da cintura Os passos vibrantes Eu sou mulher De um jeito fenomenal Mulher fenomenal: Assim sou eu Mesmo os homens se perguntam O que veem em mim, Levam tão a sério, Mas não sabem desvendar Qual é o meu mistério Quando lhes conto,...
Chico Buarque de Holanda
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As Vitrines Chico Buarque de Holanda pixabay Eu te vejo sair por aí Te avisei que a cidade era um vão - Dá tua mão - Olha pra mim - Não faz assim - Não vai lá não Os letreiros a te colorir Embaraçam a minha visão Eu te vi suspirar de aflição E sair da sessão, frouxa de rir Já te vejo brincando, gostando de ser Tua sombra a se multiplicar Nos teus olhos também posso ver As vitrines te vendo passar Na galeria Cada clarão É como um dia depois de outro dia Abrindo salão Passas em exposição Passas sem ver teu vigia Catando a poesia Que entornas no chão
Jalâl ad-Din Rûmî
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Sou artista… Sou artista, pintor, desenho imagens, nenhuma se compara a Teu fulgor. Sei criar mil fantasmas, dar-lhes vida, mas se vejo Teu rosto, dou-lhes fogo. Serves Teu vinho ao ébrio na taberna, e abates toda a casa que construo. Nossa alma sem Ti se dissolve: água na água, vinho no vinho: sinto Teu perfume. Cada gota de meu sangue te implora: “Faz-me Teu par e dá-me Tua cor.” Sofre minha alma na casa de argila: “Entra, Amado, senão hei de partir!” Jalâl ad-Din Rûmî, em “A flauta e a Lua: poemas de Rûmî”. tradução Marco Lucchesi - 2016.
Feliz Ano Novo!
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UM ANO DE ESPERANÇA Ano novo é tudo novo no sentimento da gente, porém preserve do antigo o que lhe empurrou pra frente junte tudo que prestou misture com muito amor e faça um mundo diferente. Preserve os beijos, os cheiros, os chamegos de amor, as gargalhadas mais altas, as piadas que contou, e se a tristeza apertar basta você se lembrar dos sorrisos que arrancou. O meu ou o seu caminho não são muito diferentes, tem espinho, pedra, buraco pra mode atrasar a gente. não desanime por nada pois até uma topada empurra você pra frente! Continue sendo forte tenha fé no criador fé também em você mesmo não tenha medo da dor siga em frente a caminhada saiba que a cruz mais pesada o fí de Deus carregou. Bráulio Bessa
Feliz Natal!
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POEMA DE NATAL Cora Coralina Enfeite a árvore de sua vida com guirlandas de gratidão! Coloque no coração laços de cetim rosa, amarelo, azul, carmim, Decore seu olhar com luzes brilhantes estendendo as cores em seu semblante... Em sua lista de presentes, em cada caixinha, embrulhe um pedacinho de amor, carinho, ternura, reconciliação, perdão! Tem presente de montão no estoque do nosso coração e não custa um tostão! A hora é agora! Enfeite seu interior! Seja diferente! Seja reluzente!
Adélia Prado
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Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Seu livro de estreia Bagagem
Narcisa Amália de Campos
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Por que sou forte a Ezequiel Freire Dirás que é falso. Não. É certo. Desço Ao fundo d’alma toda vez que hesito... Cada vez que uma lágrima ou que um grito Trai-me a angústia - ao sentir que desfaleço... E toda assombro, toda amor, confesso, O limiar desse país bendito Cruzo: - aguardam-me as festas do infinito! O horror da vida, deslumbrada, esqueço! É que há dentro vales, céus, alturas, Que o olhar do mundo não macula, a terna Lua, flores, queridas criaturas, E soa em cada moita, em cada gruta, A sinfonia da paixão eterna!... - E eis-me de novo forte para a luta. - Narcisa Amália (Resende, 7.9.1886), em "prefácio" ao livro "Flores do Campo" de Ezequiel Freire. Rio de Janeiro, 1874.
Adalgisa Nery
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Retrato Adalgisa Nery, por Cândido Portinari, 1937 Anseio Quero que desça sobre mim a grande sombra que alivia, Aquela que arranca do meu coração a revolta que me impede de ser mansa. Quero descansar... Quero encontrar aquele que é mais belo que o sol, Que aumenta o meu sofrimento e que ajuda na minha redenção, Que reparte suas angústias comigo para que lhe sirva de auxílio. Quero ouvir a sua voz que é como a música dos mares, Quero acolher-me na sua sombra e abraçar-me aos seus joelhos... Quero descansar sem demora... Quero chegar o tempo da minha última lágrima ser recolhida dos meus olhos pisados e saudosos. Por aquele que é o molde dos poetas, o que se veste com as estrelas que meus olhos ainda não vêem. - Adalgisa Nery, in: Dom Casmurro, Rio de Janeiro, 19 ago. 1937, p. 2.
Abdias do Nascimento
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Evocação da rosa Era uma vez uma rosa que não era vegetal nem rosa mineral carecia até da cor de rosa era uma gata formosa negra amarela e brancosa irrequietamente caprichosa vestida de suave pêlo multicor Bichana terrivelmente amorosa dos laços dos seus encantos nenhum gato jamais se livrou pelos telhados miava dengosa suspirava a noite inteira seduzindo namoradeira toda a gataria ao luar da lua alcoviteira Certo dia Rosa pariu uma ninhada de gatinhos de várias cores engraçadinhos os mais lindos eram os pretinhos mamavam de patinhas entrelaçadas ronronando de olhos cerrados boquinhas rosadas coladas às rosadas tetas de Rosa Num desses momentos um gatão assassino pêlo sujo debotado miando feio saltou felino matando gatinho por todo lado A mãe valente e briosa socorri de porrete na mão ajudei a defesa de Rosa esbordoando estridente perseguindo o ladrão ...
Carlos Drummond de Andrade
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Um homem e seu Carnaval Carlos Drummond de Andrade, do livro “Brejo das Almas”. 1934. Deus me abandonou no meio da orgia entre uma baiana e uma egípcia. Estou perdido. Sem olhos, sem boca sem dimensões. As fitas, as cores, os barulhos passam por mim de raspão. Pobre poesia. O pandeiro bate é dentro do peito mas ninguém percebe. Estou lívido, gago. Eternas namoradas riem para mim demonstrando os corpos, os dentes. Impossível perdoá-las, sequer esquecê-las. Deus me abandonou no meio do rio. Estou me afogando peixes sulfúreos ondas de éter curvas curvas curvas bandeiras de préstitos pneus silenciosos grandes abraços largos espaços eternamente.
Poesia de Natal !
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Olá Caros Viajantes! Vamos aquecer nossa alma, com a delicadeza deste belo poema! Poesia de Natal Cora Coralina Enfeite a árvore de sua vida com guirlandas de gratidão! Coloque no coração laços de cetim rosa, amarelo, azul, carmim. Decore seu olhar com luzes brilhantes estendendo as cores em seu semblante. Em suas listas de presentes em cada caixinha embrulhe um pedacinho de amor, carinho, ternura, reconciliação, perdão! Tem presente de montão no estoque do nosso coração e não custa um tostão! A hora é agora! Enfeite seu interior! Sejas diferente! Sejas reluzente!
Helena Kolody
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Helena Kolody (1912-2004) 'Foi a primeira mulher a publicar haicais no Brasil, em 1941. É uma forma poética de origem japonesa, sua característica é a concisão, ou seja, a arte de dizer o máximo com o mínimo.' SONHAR Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço Aos páramos azuis da luz e da harmonia; É ambicionar o céu; é dominar o espaço Num voo poderoso e audaz da fantasia. Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço, Engana, e menospreza, e zomba, e calunia; Encastelar-se, enfim, no deslumbrante Paço De um sonho puro e bom, de paz e de alegria. É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo, Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo; É alçar constantemente o olhar ao céu profundo. Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida: Tão grande que não cabe inteiro nesta vida, Tão puro que não vive em plagas deste mundo.